
Nunca consegui decifrar o segredo que minha avó tinha nas mãos. Tudo que ela cozinhava era gostoso. Comer sua comida era como sorver sonhos. O arroz dela, meu Deus, como ela conseguia colocar aquele cheiro nele. Era um cheiro de alho com pimenta, sem que ela usasse nenhum dos dois. E era mais branco do que neve. E o segredo dos segredos era que ela só usava gordura de porco e a comida ficava leve, e não era enjoada, e agente comia, e queria mais, e não tinha mais. Ah, então eu faço mais, dizia. Mesmo os mais “enjoados” não botavam defeito. Simplesmente porque não tinha. E o arroz ficava tão soltinho que um ventinho à-toa podia levar.
Mas tem mais. O feijão de minha avó. Era inteiro, cheiroso. Quando ela o afogava, enchia a cozinha com um cheiro misturado de feijão, carne, cebola e torresmo. E não era bacon não, era tempero mesmo. E mesmo inteiro, o feijão era macio. E a cor dele! Era um roxo tão bonito que só podia ser de gostosura. Nunca descobri que tempero era aquele.
E o ovo que minha avó fritava. Grande, oleoso, brilhante, amarelo como ouro. Cobria toda a frigideira. Ela o fazia como se fosse o prato mais chique do mundo. Feito por ela, parecia um pedaço do céu, delícia que Deus ensinou só pra ela e jogou a receita fora.
Ela também fazia uma couve que era brincadeira!!! Apanhava na hora, no canteiro em que ela mesmo plantava. E era sempre couve rasgada, verdinha. E era só ela por no fogo que a vizinhança toda vinha “filar” um pouquinho da couve rasgada da Dona Geralda. Nunca mais vi couve assim.
Era assim a comida de minha avó: maravilhosa e simples. Mas ninguém conseguia imitar. Nem minha mãe cozinhava igual. E olha que minha mãe era uma fera na cozinha, quitandeira de primeira, pegava qualquer um pela boca. Mas arroz, feijão, couve e ovo iguais aos da minha avó nem minha mãe fazia. Nem infância igual a minha!!!