segunda-feira, 8 de outubro de 2007

SAUDADES


Tenho saudade de lampiões e suas luzes de lusco-fusco criando vultos e sombras, mais escondendo do que iluminando os pecados na noite.


Saudade de fogão de lenha e broa de fubá, de canto de galo às quatro da manhã e de cachorro latindo no portão.


Saudade de bondes e sua marcha lenta, como que respeitando o caminhar da vovó, acompanhando o balanço da colegial e esperando o velhinho embarcar.


Tenho saudade de
janelas abertas e portas semi-cerradas, jardins em rosa, árvores nas ruas, sombras nas calçadas e gente a namorar.


E tenho saudade da poeira da estrada tortuosa que seguia fiel às margens do rio, como se abdicasse de seu próprio destino ou este fosse “o que o curso do rio mandar”.


Tenho tanta saudade do barulho da ponte de madeira, do rangido da porteira e do canto do carro de boi!


Saudade matadeira de gente antiga andando devagar, como se a terra fosse algo sagrado ao qual devessem pedir perdão e nem pisar.

Saudade avassaladora de gente calma como já não há. Gente que não falava, sussurrava, como se Deus as estivesse ouvindo e seu falar condenasse, como a um atentado, um sacrilégio, um pecado mortal.

São saudades intensas, imensas, que pesam como chumbo em meu coração. Lembranças perdidas de coisas que parecem, nunca conheci, sons que nunca ouvi, lugares que nunca senti, gente com quem nunca convivi. Saudades de um mundo, que parece, nunca existiu.

Chico Teixeira

2 comentários:

Anônimo disse...

Francisco, tudo que voce escreve e´sempre muito forte,lindo mas quando voce escreve sobre a saudades voce sabe o quanto eu fico emocionada. Saudades,saudades! Muitas saudades e´o que sinto de voce.
Beijos com amor e saudades.
Marta

Anônimo disse...

Gostei muito de "Saudades" mas nao nego que me trouxe um pouco de melanconia, prefiro pensar que seja pela intensidade do texto que teve o poder de despertar...
Beijos
Neide