segunda-feira, 10 de setembro de 2007

No lotação


Uma entra apavorada, olhos arregalados, sem querer empurrar, mas já empurrando todos na sua frente. E atrás também. Claro, está atrasadíssima e os outros é que pagam o pato. Por quê não se levanta mais cedo? E ainda mais na segunda-feira, quando todo mundo deixou o bom humor no domingo. Outra chega lentamente, para, olha e se conforma, pois tem que ir em pé mesmo. Não fica satisfeita, pois está morta de sono, é universitária, e como todas as universitárias, parece que nasceu cansada e tem uma necessidade incontrolável de se sentar. Ainda por cima, vai assistir àquela aula chatérrima de metodologia, com aquele professor que sabe tudo da matéria. Mas que matéria!!! Uma terceira aparece e chama a atenção, pois seu perfume entra pelo nosso nariz como uma flecha, queiramos ou não. Claro, não é dos mais agradáveis, enche o ônibus, do passageiro ao último lugar, mas é melhor do que o odor “suvacoterístico” daquele outro que entra dois pontos depois. Nunca consegui definir se é de cachorro molhado ou de três semanas atrás o que ele exala.

Não há o que fazer. Pedir lugar a alguém? Chorar? Reclamar? Mudar de lugar? De nada adiantaria. São situações e pessoas que se encontram nos coletivos de Belo Horizonte. Às vezes viaja-se o tempo todo, de um bairro a outro, em pé, sentindo uma diversidade de cheiros, gente com manias em profusão. Outro dia entrou uma e riu pra mim. Ri, educadamente, mexi com a cabeça e fim. Mas ela continuou rindo, parecia que acenava e acabei sem graça. Deixa pra lá, esse mundo está cheio de louco.

Alguns trazem livros na esperança de passar melhor o tempo, mas raramente é possível fazer parceria com a literatura em um coletivo. Porque uma das mãos segura o corrimão, a outra a bolsa e, se houvesse uma terceira, teria que amparar a mocinha que quase cai com o solavanco ou a velhinha que, apesar de já ter entrado nos quase 70, insiste em pagar a passagem e passar na roleta. Aliás, para mostrar que ainda não chegou na terceira idade, tem os cabelos "naturalmente" escuros e usa calça jeans colada. Vai toda vaporosa, até que alguém grita: "Aí vovó, 50 aninhos, mas corpinho de 70 heim!!!". Sem dar pelota e mantendo a linha e a fleuma, ela desce no ponto seguinte.

Mais adiante, a moça perfumada desce. Como o perfume é "maravilhoso", fica. Coincidentemente, o rapaz com cheiro de duas semanas também desce, mas também seu cheiro “agradável” fica. Parece até que os dois combinaram de brindar-nos com fragrâncias tão singulares! Enquanto isso, a apavorada/atrasada está quase saltando pela janela e reclamando que o ônibus não anda: “o que vou dizer pro meu patrão, é a terceira vez que atraso só nessa semana por causa dessa carroça”, grita ela. Ninguém diz nada. Todos sabem, de nada adiantaria chiar. De repente vaga um lugar e a universitária, compulsivamente, corre e se senta. Agora sim, dá pra cochilar. Mas é por pouco, três ou quatro pontos e já desce.

Estou quase no fim da viagem, que faço todos os dias automaticamente. E hoje nem notei que o trocador, exemplo de profissionalismo, exibe óculos escuros e segue com o ouvido colado no rádio do celular. Para completar o quadro, masca um chiclete, porque ninguém é de ferro. Se alguém pedir uma informação, certamente ele perguntará: “heiiimmm, oiii, o quêêê”. E o motorista, concentrado ao volante e alheio a tudo, continua sua viagem. Para quem começou às 4 da manhã, uma viagenzinha a mais apenas. Finalmente desço. Livre, apresso-me a chegar ao trabalho. Acho a avenida uma maravilha, larga, espaçosa, inspiro o ar da manhã, olho pro céu, quase agradeço a Deus por descer do lotação. Mas, de repente: “um minutinho meu senhor, tô fazendo uma pesquisa....” Ah meu Deus, como era bom aquele lotação!!!

Chico Teixeira

Um comentário:

Wagner Bottaro disse...

A realidade é dura...
é madura...
é necessária...
é rotineira.