segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Ao Rubem Braga


Reli, no fim de semana, algumas crônicas do Rubem Braga. Fiquei com vergonha por tudo quanto escrevi até hoje. Sempre me achei habilitado a ser algo parecido com um escritor. Para mim, bastava pegar a caneta e tudo fluiria. Não desconfiava que a fonte do grande escritor, e mesmo do mais medíocre, é o trabalho. O esforço cotidiano é que dá a ele condições de retratar a vida como ela verdadeiramente é. O Rubem - vejam só que intimidade – começou cobrindo a Segunda Guerra. Vejam só, tornar-se escritor contando histórias tão tristes, escrever sobre companheiros mortos em campo de batalha. Como deve ter sido pesado para ele enviar esse tipo de notícia para seu país. E quantas vezes ele deve ter pensado em mandar uma de suas crônicas, bem diferentes daquela perversidade toda. E, no entanto, as baixas ou vitórias no combate eram o que interessavam, doesse a quem doesse, mesmo nele.
Certamente, o Rubem Braga se orgulhava de ser um soldado,
estar no front, servindo seu país. Devia olhar sua farda, seu fuzil, sua botina, seu cinturão carregado de munição, suas granadas com as quais podia explodir e pensar: "como sou poderoso, posso matar, fazer prisioneiros, destruir casamatas, arrebentar esconderijos, bater, humilhar, dilacerar". E, na guerra, só existem o nosso lado e o do inimigo. E aí, todas as brutalidades são justificadas. Tudo pela vitória! Até do Rubem, certamente, embora tenhamos certeza de que ele não cometeu uma sequer. Mas se ele estava na guerra, poderia avançar, tomar a casa do inimigo, roubar sua comida, sua mulher, seus filhos, pais, irmãos. O limite, a fronteira entre a vileza e a dignidade dependia da capacidade dele, de sua força. Com sua faca ele poderia arrancar o coração do inimigo, queimar seus sonhos, um a um, implodir sua esperança, desmanchar seus castelos, secar a fonte de sua emoção. E, se isso ahasse isso pouco, poderia tirar-lhe a sobriedade, a sensibilidade, a consciência, a lucidez, a razão. E fazer dele um louco, desatinado, endemoninhado, a uivar desesperadamente feito um animal sem dono, um espírito purgando entre o céu e o inferno, um corpo a procurar a alma e o sangue entre os cadáveres dos irmãos. É, o Rubem devia pensar sobre isso. Estava em uma guerra, era impossível que, com tanto sangue ele não passasse por essas tentações.
Mas eu estava dizendo da vergonha de achar que sou um escritor. Como posso me atrever a tanto com um Rubem Braga em minha estante! Ele, dono de tão lindas crônicas, e nunca se importou de ter começado a escrever sobre mortes, gente trucidada ou para sempre marcadas pela guerra. E a guerra tem memso o poder de fazer todos iguais: escritores, analfabetos, doutores, jornalistas. Até
Hitler, um medíocre pintor se transformou no mais poderos monstro da história. E produz também muito herói incógnito. Certamente outros cronistas, outros poetas, outros pintores.
Produz também novos países, liberta colonizados, une e desune povos, cria filhos sem pais, pais sem filhos, mulheres sem maridos e homens sem mulheres. Também inventa tratados, que na próxima guerra não valerão mais nada. A guerra é tão absurdamente mágica, que inspira best sellers
que se transformam em filmes e fazem o mundo chorar: Platoon, Por quem os sinos dobram, Apocalipse Now, Acorda Vietnam, A lista de Schindler... Maravilhas inigualáveis.
A guerra é assim, controvertida. Alguns dizem que são necessárias. Para mim não. Talvez ela tenha contribuído com a literatura do Rubem, porque não dá pra negar que é uma baita experiência. Às vezes penso se o ele seria este mesmo cronista se não tivesse participado da guerra. Mas que bobagem, é claro que sim, um homem como ele!? Talvez, se não tivesse vivido essa experiência, trocaria a farda pela camiseta e uma bermuda. Aí, poderia ter sido correspondente no Hawaí. Seria um outro front, uma outra guerra e, em vez de inimigos, falaria de surfistas. Em vez de soldados, turistas. Em vez de trincheiras, bares. Em vez de sangue, falaria de mar. Claro, suas crônicas não perderiam o brilho, a leveza, a emoção. Ele continuaria sendo esta monstruosidade de cronista. E eu continuarei com minhas historiazinhas medíocres, invejando o Rubem cada vez mais, arrumando desculpas para cometer meus poemas, minhas crônicas, minhas críticas. Eu, que só conheço as guerras glamourosas de Hollywood com seus cenários de eucatex, pedras e montanhas de isopor, armas de plástico e balas de borracha, aeromodelos prateados cruzando um céu pintado no teto e mortos tombando solenes e teatrais cobertos de sangue de catchup.

Chico Teixeira

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Abaixo


Abaixo todas as crises: de identidade, existenciais e ministeriais. Abaixo os que querem governar os corações, as emoções e as sensações. E sim à instantânea explosão, à espontânea combustão, ao sobre humano tesão.

Abaixo o irracional, o internacional, o anti-gripal, o artificial. Abaixo o original, o moderno, o novo, o atual. E sim ao suor e ao sal.
Abaixo os ofícios, os carimbos, os selos e todas as marcas. Abaixo todos os símbolos, todos os rótulos, todos os títulos.

Abaixo o baixo astral e a troca do bem pelo mal. Abaixo a incoerência, a abstinência e a falsa decência.

Abaixo o desapontamento e a decepção, pois a vida tem mesmo o aperto no ônibus, a contramão. Ela é assim, de pé em pé, mão em mão, sim em sim, não em não.

Abaixo a estagnação, o verbo estar, estou, estão. Abaixo a carinha de anjo, o carrinho de anjo, a asinha de anjo, o arzinho de anjo. E não ao adeus definitivo e sim ao “ciao”.

Abaixo as escrituras, sagradas e consagradas, malditas e satânicas, latinas, eruditas e clássicas. E sim às populares, singulares e de cordel. Abaixo as línguas ininteligíveis dessa babel.
Prefira o seu próprio idioma, a fala que soma e não assalta, não avança, e não nos deixa em coma.

Abaixo os sons de aviões, de jumbos e suas aero-explosões. E sim a todas as músicas, dessas que sempre se ouviram, que sempre existiram, sem muitas colcheias ou breves, cantadas em “fá”, que é melhor.

Abaixo toda insatisfação entre essa e outra nação. Abaixo esse país, o astral desse país, a desolação desse país. Deixa lá esse gigante e sua madorna renitente e constante.

E chega de tantos “ais”, de tantos menos e mais. Chega de gente esquecida, escondida e ex-querida. Pois o tempo já urge e chega, e com ele o espaço, o segundo, o minuto e a hora: e adeus bonança.

E abaixo a tela, que já não mais suporta as nuanças; o livro, que já não quer mais redundâncias; e a lógica, não quer mais inconstâncias.

Abaixo as ciências, humanas e desumanas. E que reinem todas as artes, gregas e troianas, judias e romanas, laicas e clérigas, futurísticas e cibernéticas, normais e insanas, celestiais e mundanas, sacras e profanas. Que reine a raça humana!!!

Chico Teixeira

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O homem e a estrela



Havia um homem, em um país bem distante, que amava sua mulher mais do que qualquer a outra pessoa no mundo. Mais do que sua mãe, seu pai, seus irmãos. Mais do que a Deus. Ele amava tanto a essa mulher, que prometeu dar a ela a estrela mais linda do céu. Procurou durante muitas madrugadas. Ficava horas a fio olhando o céu. Esquecia de comer, de dormir. Não parava. Quando alguém perguntava por que ele era tão persistente, dizia que era por não poder decepcionar aquela mulher, pois significaria uma decepção ainda maior para ele próprio se não conseguisse.

Assim ficou por meses, anos, décadas e, se vida tivesse, ficaria por séculos. Nos últimos anos, a obsessão se ampliara e ele havia montado um observatório em sua casa, com telescópios das mais diversas procedências, muito caríssimos, comprados a um valor muitas vezes maior que seus ganhos, muito além de suas posses. Tudo para investigar melhor as mais distantes e reluzentes galáxias. Nada conseguiu. Tentara tanto que já conhecia todas as constelações: Ursa Maior, Ursa Menor, Cruzeiro do Sul, Aquário, Centauro, Capricórnio, Cassiopéia, Cães de Caça, Cão Menor, Cão Maior, Coroa Boreal, Coroa Astral, Cisne, Dragão, Peixe Dourado, Leão, Leão Menor, Unicórnio, Oitante, Serpentário, Órion, Pégasus Cavalo Alado, Perseus, Serpente, Sextante, Touro, Triângulo Astral, Tucano, Virgem Andrômeda e outras e outras e outras, chegando a conhecer, em detalhes de altíssima complexidade, em níveis sofiscadíssimos, todas as 88 constelações reconhecidas internacionalmente pela IAU - Internacional Astronomical Union.

Nem esse vasto conhecimento o ajudou. De nada adiantou vir da ignorância completa no assunto, achando que ainda se usavam astrolábios, e transformar-se em um astrônomo de renome internacional. Nunca freqüentara oficialmente uma escola, mas dava palestras para os especialistas da Nasa, e tornou-se, a convite, professor honoris causa da IAU. Envelheceu, perdeu a força, passou a esquecer até do próprio nome. Enxergava cada vez menos e, a cada dois ou três meses, trocava seus telescópios pelos mais modernos, com lentes cem, mil vezes mais potentes. Chegava a dar dó o amor e a persistência daquele velhinho, barba branca, encurvado, quase cego, a procurar a estrela que prometera a sua amada. Àquela altura da vida, ele já nem sabia ao certo se ela ainda o esperava, se ainda estava viva, se ainda o amava. Mas ele continuava. Se alguém perguntava se não seria melhor parar aquela procura vã, pois estava já cansado e, provavelmente, aquela mulher não estava mais o esperando, ele dizia que não, pois sria uma grande decepção desistir agora, exatamente quando estava próximo de conseguir alcançar a estrela.

Continuou. Um dia, caiu em profundo sono, pendurado em um dos mais de 200 telescópios que colecionara ao longo do tempo, no observatório que construíra exclusivamente para encontrar a estrela para sua amada. Acordou muitas horas depois, mas com a sensação de que dormira meses seguidos. Estava em um lugar maravilhoso, sentindo uma felicidade indescritível, sorrindo incontrolavelmente e com o coração a saltar-lhe pela boca de satisfação. As mãos suavam, os olhos estavam encharcados e se sentia completamente impotente para pronunciar uma palavra sequer, tal a emoção. Finalmente conseguira encontrar a estrela. Finalmente cumpriria a promessa que fizera à única mulher que amara na vida. Estava tão imensamente feliz, tão retumbantemente feliz, tão definitivamente feliz, tão inexoravelmente feliz, que nem notara que estava exatamente em meio à esfuziante luz da estrela que prometera à sua amada. Estava no céu.

Chico Teixeira

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

No lotação


Uma entra apavorada, olhos arregalados, sem querer empurrar, mas já empurrando todos na sua frente. E atrás também. Claro, está atrasadíssima e os outros é que pagam o pato. Por quê não se levanta mais cedo? E ainda mais na segunda-feira, quando todo mundo deixou o bom humor no domingo. Outra chega lentamente, para, olha e se conforma, pois tem que ir em pé mesmo. Não fica satisfeita, pois está morta de sono, é universitária, e como todas as universitárias, parece que nasceu cansada e tem uma necessidade incontrolável de se sentar. Ainda por cima, vai assistir àquela aula chatérrima de metodologia, com aquele professor que sabe tudo da matéria. Mas que matéria!!! Uma terceira aparece e chama a atenção, pois seu perfume entra pelo nosso nariz como uma flecha, queiramos ou não. Claro, não é dos mais agradáveis, enche o ônibus, do passageiro ao último lugar, mas é melhor do que o odor “suvacoterístico” daquele outro que entra dois pontos depois. Nunca consegui definir se é de cachorro molhado ou de três semanas atrás o que ele exala.

Não há o que fazer. Pedir lugar a alguém? Chorar? Reclamar? Mudar de lugar? De nada adiantaria. São situações e pessoas que se encontram nos coletivos de Belo Horizonte. Às vezes viaja-se o tempo todo, de um bairro a outro, em pé, sentindo uma diversidade de cheiros, gente com manias em profusão. Outro dia entrou uma e riu pra mim. Ri, educadamente, mexi com a cabeça e fim. Mas ela continuou rindo, parecia que acenava e acabei sem graça. Deixa pra lá, esse mundo está cheio de louco.

Alguns trazem livros na esperança de passar melhor o tempo, mas raramente é possível fazer parceria com a literatura em um coletivo. Porque uma das mãos segura o corrimão, a outra a bolsa e, se houvesse uma terceira, teria que amparar a mocinha que quase cai com o solavanco ou a velhinha que, apesar de já ter entrado nos quase 70, insiste em pagar a passagem e passar na roleta. Aliás, para mostrar que ainda não chegou na terceira idade, tem os cabelos "naturalmente" escuros e usa calça jeans colada. Vai toda vaporosa, até que alguém grita: "Aí vovó, 50 aninhos, mas corpinho de 70 heim!!!". Sem dar pelota e mantendo a linha e a fleuma, ela desce no ponto seguinte.

Mais adiante, a moça perfumada desce. Como o perfume é "maravilhoso", fica. Coincidentemente, o rapaz com cheiro de duas semanas também desce, mas também seu cheiro “agradável” fica. Parece até que os dois combinaram de brindar-nos com fragrâncias tão singulares! Enquanto isso, a apavorada/atrasada está quase saltando pela janela e reclamando que o ônibus não anda: “o que vou dizer pro meu patrão, é a terceira vez que atraso só nessa semana por causa dessa carroça”, grita ela. Ninguém diz nada. Todos sabem, de nada adiantaria chiar. De repente vaga um lugar e a universitária, compulsivamente, corre e se senta. Agora sim, dá pra cochilar. Mas é por pouco, três ou quatro pontos e já desce.

Estou quase no fim da viagem, que faço todos os dias automaticamente. E hoje nem notei que o trocador, exemplo de profissionalismo, exibe óculos escuros e segue com o ouvido colado no rádio do celular. Para completar o quadro, masca um chiclete, porque ninguém é de ferro. Se alguém pedir uma informação, certamente ele perguntará: “heiiimmm, oiii, o quêêê”. E o motorista, concentrado ao volante e alheio a tudo, continua sua viagem. Para quem começou às 4 da manhã, uma viagenzinha a mais apenas. Finalmente desço. Livre, apresso-me a chegar ao trabalho. Acho a avenida uma maravilha, larga, espaçosa, inspiro o ar da manhã, olho pro céu, quase agradeço a Deus por descer do lotação. Mas, de repente: “um minutinho meu senhor, tô fazendo uma pesquisa....” Ah meu Deus, como era bom aquele lotação!!!

Chico Teixeira

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O QUE SERÁ DAS SINGELEZAS


A vida nos presenteou com algumas coisinhas singelas que hoje já não têm grande valor. Deixou-nos, por exemplo, uma palavra tipo “peralta”, um utensílio em desuso como “tacho”, um hábito que não se cultiva mais como “escrever a mão”.

Perto de outras coisas, como um avião, não são nada. De que vale, por exemplo, a palavra peralta, se as crianças hoje são tratadas como autistas, disléxicas, inadaptadas, com transtorno de déficit de atenção.

Nenhum menino hoje é um capeta, um peralta. E o tacho, para que serve um utensílio como este, com o qual nossas avós nos brindaram com tantos doces gostosos se essas mesmas avós agora estão todas na Internet e já nem são mais avós e sim pessoas da terceira idade.

Escrever a mão nem pensar. Gastar papel, tinta e ainda por cima perder um tempão. É muito mais fácil mandar um e-mail, que chega em tempo real, com resposta em segundos.

Temo que em algum tempo ninguém mais vai saber que essas coisas existiram. O tempo, que tudo engole, engolirá os peraltas, os tachos e o escrever a mão. E essas minhas reminiscências serão cinzas de um passado feliz. E todas essas singelezas não mais existirão!!!

Chico Teixeira