
Reli, no fim de semana, algumas crônicas do Rubem Braga. Fiquei com vergonha por tudo quanto escrevi até hoje. Sempre me achei habilitado a ser algo parecido com um escritor. Para mim, bastava pegar a caneta e tudo fluiria. Não desconfiava que a fonte do grande escritor, e mesmo do mais medíocre, é o trabalho. O esforço cotidiano é que dá a ele condições de retratar a vida como ela verdadeiramente é. O Rubem - vejam só que intimidade – começou cobrindo a Segunda Guerra. Vejam só, tornar-se escritor contando histórias tão tristes, escrever sobre companheiros mortos em campo de batalha. Como deve ter sido pesado para ele enviar esse tipo de notícia para seu país. E quantas vezes ele deve ter pensado em mandar uma de suas crônicas, bem diferentes daquela perversidade toda. E, no entanto, as baixas ou vitórias no combate eram o que interessavam, doesse a quem doesse, mesmo nele.
Certamente, o Rubem Braga se orgulhava de ser um soldado, estar no front, servindo seu país. Devia olhar sua farda, seu fuzil, sua botina, seu cinturão carregado de munição, suas granadas com as quais podia explodir e pensar: "como sou poderoso, posso matar, fazer prisioneiros, destruir casamatas, arrebentar esconderijos, bater, humilhar, dilacerar". E, na guerra, só existem o nosso lado e o do inimigo. E aí, todas as brutalidades são justificadas. Tudo pela vitória! Até do Rubem, certamente, embora tenhamos certeza de que ele não cometeu uma sequer. Mas se ele estava na guerra, poderia avançar, tomar a casa do inimigo, roubar sua comida, sua mulher, seus filhos, pais, irmãos. O limite, a fronteira entre a vileza e a dignidade dependia da capacidade dele, de sua força. Com sua faca ele poderia arrancar o coração do inimigo, queimar seus sonhos, um a um, implodir sua esperança, desmanchar seus castelos, secar a fonte de sua emoção. E, se isso ahasse isso pouco, poderia tirar-lhe a sobriedade, a sensibilidade, a consciência, a lucidez, a razão. E fazer dele um louco, desatinado, endemoninhado, a uivar desesperadamente feito um animal sem dono, um espírito purgando entre o céu e o inferno, um corpo a procurar a alma e o sangue entre os cadáveres dos irmãos. É, o Rubem devia pensar sobre isso. Estava em uma guerra, era impossível que, com tanto sangue ele não passasse por essas tentações.
Mas eu estava dizendo da vergonha de achar que sou um escritor. Como posso me atrever a tanto com um Rubem Braga em minha estante! Ele, dono de tão lindas crônicas, e nunca se importou de ter começado a escrever sobre mortes, gente trucidada ou para sempre marcadas pela guerra. E a guerra tem memso o poder de fazer todos iguais: escritores, analfabetos, doutores, jornalistas. Até Hitler, um medíocre pintor se transformou no mais poderos monstro da história. E produz também muito herói incógnito. Certamente outros cronistas, outros poetas, outros pintores.
Produz também novos países, liberta colonizados, une e desune povos, cria filhos sem pais, pais sem filhos, mulheres sem maridos e homens sem mulheres. Também inventa tratados, que na próxima guerra não valerão mais nada. A guerra é tão absurdamente mágica, que inspira best sellers que se transformam em filmes e fazem o mundo chorar: Platoon, Por quem os sinos dobram, Apocalipse Now, Acorda Vietnam, A lista de Schindler... Maravilhas inigualáveis.
A guerra é assim, controvertida. Alguns dizem que são necessárias. Para mim não. Talvez ela tenha contribuído com a literatura do Rubem, porque não dá pra negar que é uma baita experiência. Às vezes penso se o ele seria este mesmo cronista se não tivesse participado da guerra. Mas que bobagem, é claro que sim, um homem como ele!? Talvez, se não tivesse vivido essa experiência, trocaria a farda pela camiseta e uma bermuda. Aí, poderia ter sido correspondente no Hawaí. Seria um outro front, uma outra guerra e, em vez de inimigos, falaria de surfistas. Em vez de soldados, turistas. Em vez de trincheiras, bares. Em vez de sangue, falaria de mar. Claro, suas crônicas não perderiam o brilho, a leveza, a emoção. Ele continuaria sendo esta monstruosidade de cronista. E eu continuarei com minhas historiazinhas medíocres, invejando o Rubem cada vez mais, arrumando desculpas para cometer meus poemas, minhas crônicas, minhas críticas. Eu, que só conheço as guerras glamourosas de Hollywood com seus cenários de eucatex, pedras e montanhas de isopor, armas de plástico e balas de borracha, aeromodelos prateados cruzando um céu pintado no teto e mortos tombando solenes e teatrais cobertos de sangue de catchup.
Chico Teixeira




